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terça-feira, 3 de março de 2015

O último Patriarca

Olá.

Está a fazer dois meses que morreu o meu avô materno.

Sábado, dia 3 de Janeiro, íamos nós (eu e a minha mãe) começar a almoçar (14:30 +/-), quando recebemos a chamada com a notícia que nunca queremos receber.

A assistente social do lar onde estavam os meus avós, ligou-nos a informar e a exigir ser ela a tratar do funeral. Contudo, e devido ao histórico de má conduta de tal pessoa, nós já tínhamos providenciado as coisas.

Ligamos logo para a restante família materna contudo, ninguém nos atendia. Era então altura de ligar para o meu irmão... a minha mãe ao perguntar se ele viria a Portugal para o enterro do avô, ele apenas e só preocupado com as custas do funeral [desde esse dia, nem a minha mãe ligou-lhe, nem ele ligou à minha mãe. Escusado será dizer que não veio ao funeral]. Contudo, por insistência do meu irmão, a minha mãe ligou ao meu pai que, aquela hora, não estava em casa. Ligou-lhe e, ao receber a noticia, comentou "Sorte a tua e a dele".

Não sabíamos o que fazer, mas tínhamos de ir à terra. Assim, começamos a ver os horários e a fazer as malas. Não tínhamos qualquer informação de que família iria ao funeral, portanto, a minha mãe ligou para uma amiga de lá da terra, ao qual muito  afectuosamente nos confirmou oportunidade de lá ficarmos alguns dias e andar connosco para onde precisaríamos.

Domingo lá apanhamos o autocarro e, o casal amigo foi-nos lá buscar. Chegamos ao inicio da tarde contudo, como se tratava de um domingo, toda a cidade estava fechada... o que havia era um café que não tinha nada nas vitrinas.... acabamos por alguma uma tosta mista que nos sabia a ranço! Enfim, fomos então para a Vila da minha mãe. Quando chegamos, fomos logo para o velório, onde já estava a minha avó.

Nunca tinha estado num velório e, sinceramente, não sabia como me comportar. Enfim, lá fiquei. Ambiente complicado... a maior parte das pessoas não conhecia, mas as pessoas sabiam quem eu era. Família distante que nunca tinha visto e que me vinham dar os pêsames. A pior situação foi quando a minha mãe foi ter com o seu pai... não consegui, tive de ir para fora da casa mortuária... aquilo que ela dizia, toda aquela situação... enfim, demasiado triste.

Cá fora e já lá dentro, só se falava de um assunto: não há café! Sim, não há a máquina do café! Explico: toda aquela gente estava contra nós, porque não deixamos que a assistente social ganhasse a comissão da agência funerária lá da terra e, portanto, resolveram numa atitude de anticristianismo, digamos, boicotar o velório e o funeral de um senhor querido por todos, com 91 anos, isto porque não havia café! O cumulo disto, é que as pessoas diziam isto no velório, nos cafés onde entravamos e, algumas pessoas vinham directamente tirar satisfações desse mesmo facto. Incrível.

Entretanto fazia-se muito frio e, a minha avó foi para o lar. Tinha que haver sempre alguém da família no velório portanto, fui jantar e depois foi a minha mãe. Quando estava na casa mortuária, tinha umas 4 beatas que depois foram-se embora. Fiquei, sozinho, durante algum tempo. Se sentia medo? Não. Ainda me levantei e caminhei por lá (fazia muito frio!)... tinha ao meu lado o meu avô e o seu caixão aberto... Entretanto chegaram uma prima de um primo meu com o marido e depois chegou a minha mãe... Passado um pouco, chegou a irmã da minha mãe (com a sua filha mais nova, mas que tinha ido logo para casa delas na vila), que tinha vindo de França. Entretanto já eram 22:30 +/- e fechamos aquilo. Fazia mesmo muito frio e não havia ninguém na rua.

2ªfeira, foi o dia do funeral e vi aquilo que não queria ver. Fomos então abrir a casa mortuária. Eu, a minha mãe, a minha tia e a filha dela. A minha prima fez algo que, a meu entender, não o deveria fazer, mas pronto.... tirou o lenço que estava sobre o rosto do meu avô e disse que não deveria estar lá nenhum lenço pois as pessoas sabem para o que vão... enfim.... então vi a cara do meu avô. Por estranho que pareça, não foi tão complicado quanto julguei...

Era então altura de chegar a Irmandade, ao qual o meu avô pertenceu. Depois das suas palavras, era altura de pegar no caixão. Aproximou-se um primo afastado, um amigo, um sujeito da irmandade e atrás de mim ouvi "Vá, tens de ir" e ao mesmo tempo fui empurrado e fui... dou aquele passo para a frente sem saber o que fazer... não sabia o que fazer e só me lembrava que tinha de pegar no caixão do meu avô... Só pensava que tinha de ter força, desse por onde desse... saímos da casa mortuária e depois tivemos que subir uns degraus de pedra para entrar na igreja. Algo complicado mas fizemos. Depois da missa, voltar a pegar no caixão. Tenho a noção que provavelmente estava todo torto a levar o caixão..... sabia que tinha de ter força para aquilo.... voltar a descer os degraus de pedra (mais de 5) para pôr na carrinha funerária. Cortejo fúnebre, a pé, para o cemitério [em que o assunto era a máquina do café]. Quando lá chegamos, voltar a pegar no caixão para o cemitério, mais umas palavras da irmandade (voltou a abrir-se e a fechar-se o caixão) e levou-se para o terreno de família. Lá fui para perto do fosso.... só tinha medo de escorregar e cair para uns 4 metros de fundura!....

Afastei-me e puseram o caixão lá dentro mas... não cabia.  Lá estiveram os 3 homens a pegar com cordas e a tentar pôr e tirar o caixão de todas as formas possíveis até que se chegou à conclusão que o coveiro não abriu com o cumprimento necessário! Voltou a tirar-se o caixão de lá de dentro para o outro acabar o que tinha feito mal. Nesta altura, estava eu e a minha prima ao pé daquilo tudo e o resto das pessoas estavam um pouco mais afastadas. Aproximou-se uma coscuvilheira a querer conversa e só dizia "pois, isto acontece porque é outra agência funerária... se fosse a agência daqui não acontecia.... são lá de Lisboa, não sabem como são aqui as coisas...". Não aguentei estar calado e respondi-lhe "Não é nada disso. Não fale do que não sabe." Ela repetia o que dizia e eu falava ao mesmo tempo "Não fale o que não sabe. Não fale o que não sabe. Não fale o que não sabe. ..." Até que desistiu e foi para ao pé das outras pessoas.

Curiosidades:
A verdade é que o coveiro é daquele cemitério, a junta de freguesia não deixou que a agência levasse o próprio coveiro. Tivemos toda a gente contra nós. A minha mãe foi a única pessoa que pagou a totalidade do funeral. Eu comprei um ramo de 3 rosas brancas e foram as primeiras floras aos pés do meu avô. Fui o único descendente homem presente em todas as celebrações. Fiquei com a samarra do meu avô... ao vestir percebi que me ficava lindamente e até parecia que tinha sido feito à medida (coincidências?!) e estava em óptimo estado. Só chorei quando ouvi de uma funcionária e quando contei à minha prima, como o meu avô morreu.

A morte do meu avô foi, simplesmente, angelical...
Ele é, sem dúvida, o último grande homem que conheci.

Mais do que pai, é um conciliador.
Mais do que homem, é um exemplo.
Mais do que um ídolo, ele é o meu avô.

Quando chegamos a casa, percebemos que tínhamos sido roubados mas isso, fica para outro dia.


Beijos.