Queres enviar um comentário longo, desabafar, ou simplesmente conversar? Escreve para o meu e-mail: adolescentegay92@gmail.com

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A procissão da aldeia

Boa noite.

Amanhã é noite de Natal e nesta época religiosa, penso que seja oportuno explicar algo que senti em Agosto, aquando das minhas férias na terra da minha, na Beira Baixa.

Durante uma semana, eu e a minha mãe, voltamos à terra onde em Janeiro de 2015, enterrei o meu avô materno. Fomos para um alojamento local muito simpático, onde estávamos mesmo no centro da aldeia; não fomos para casa de família ou amigos, queríamos privacidade e Paz. Fomos, assim, numa viagem de descanso, onde queríamos aproveitar os ares da Serra da Estrela e as festas da terra, que o ponto alto é a procissão no domingo à tarde e, de véspera, a procissão das velas.
A religiosidade, para mim e na actualidade, é como uma experiência espiritual que deve ser vivida, mesmo que não sinta nenhum "chamamento", mas apenas interesse em participar em algo tradicional e cultural. As festas de Verão são mais do que festas pagãs, são momentos de recordações de tempos idos, onde nas fotografias que guardamos nas nossas lembranças, têm protagonismo as pessoas já falecidas, e a felicidade infantil de quando se achava que tudo era para sempre...

As procissões não são para alegrar os vivos mas, melhor dizendo, para dar vida aos mortos, explico: quando se participa num acto religioso deste género, encarna-se novamente na nossa meninice, quando fazíamos o mesmo trajecto, acompanhados por pais, tios, avós, e primos. Participamos agora, não por nós, mas por eles... é como se, numa procissão, estejamos a homenagear tudo aquilo que fizemos juntos. Quando os andores, o padre, e os ditos religiosos se misturam numa tarde quente de Agosto, apenas ecoam nos vossos ouvidos, as conversas que nos vamos recordando, através de locais onde, em tempos felizes, brincámos, rimos, e conversamos com quem nos era mais próximo.

Nas procissões, não há motivos de riso, mas sim de um acto solene e de enorme respeito, não por nós... mas por eles. Assim vivi as duas procissões. A da noite foi uma aventura épica pois, nem toda a aldeia tem iluminação pública e, por entre caminhos de cabras e casas onde habita a pobreza extrema, não deixaram de financiar as festas anuais. Ali, por aqueles caminhos tenebrosos com cheiro a estrume, todos nós caminhamos, sem ver rigorosamente nada, incluindo o padre que, por diversas vezes teve que parar a leitura pois não conseguia ver... se não fossem as pessoas a chegarem perto dele com as velas, estaríamos quase toda a noite a recitar as mesmas coisas...

No domingo, no dia mais importante para aquelas gentes, todos estávamos bem vestidos. Neste dia, até as famílias que escondem em casa os filhos com algum tipo de deficiência, trazem-os até ao largo da Igreja (mas, logo depois da missa, voltam para a casa, sorrateiramente). Os sinos da Igreja marcam o fim da missa onde, não cabe todos aqueles que querem assistir, ficando inúmeros aldeões à espera e a tentar ouvir o padre, do lado de fora.

E os andores começam a sair, repletos de pétalas de rosas (que mais terão vindo dos varandins das casas por onde passar-se-á) e homens e mulheres que, assim começam a cumprir os seus juramentos por filhos, irmãos, e por eles próprios. Começa então o longo cortejo, onde os vivos - de roupas alegres -, não fazem mais do que lhes é esperado - recordar os mortos. E lá vão os muitos andores, onde os homens se revezam e as suas esposas estão atentas para os ajudarem a ajeitar os panos que se encontram acima dos seus ombros; os que não têm essa preocupação, recordam aqueles onde, em tempos mais felizes, faziam-se acompanhar; os outros - como é o meu caso - respeitam a crença dos outros e emocionam-se com a dignidade que, algum dia, se quererá ser lembrado (há coisa mais digna do que o Amor?)...

Amanhã cumprira-se-á mais uma vez a tradição de, cá em casa, comer-se bacalhau com batatas, cenouras, ovos, e couves - tudo bem cozido. A tudo isto juntar-se-á, garantidamente, um azeite bem forte, para se sentir que tudo é nosso, tal como se viveu no passado.

Podemos ter uma mesa com menos gente, com menos fartura, com menos conversas... mas temos algo que não se paga nem se esquecerá e que espero que vos acompanhará a todos - que é Paz.

Feliz Natal a todos, cheio de Paz, Tolerância, e Amor.

(Sim, e porque para mim, este vídeo representa tudo o que é o Natal [e chorei, obviamente...])




Beijinhos e portem-se mal!! ;)